É possível estar no meio de uma multidão e, ainda assim, experimentar uma sensação profunda de isolamento, tal como Ademir (Dan Stulbach) pode se sentir em "Quem Ama Cuida", depois de pintar e bordar com tantas pessoas...
Da mesma forma, alguém pode passar horas sozinho e não se sentir solitário. A diferença entre essas duas experiências ajuda a compreender uma das reflexões mais conhecidas de Henry David Thoreau sobre a solidão: “A solidão não se mede pelos quilômetros de distância entre um homem e outro”.
A frase aparece no capítulo “Solitude” (“Solidão”) de Walden, obra publicada originalmente em 1854, na qual o escritor, filósofo e poeta americano narra parte de sua experiência vivendo em uma cabana construída por ele mesmo às margens do lago Walden, em Concord, Massachusetts.
A reflexão voltou a ser destacada pelo portal espanhol Cuerpomente, em artigo publicado pela jornalista Carolina Pinedo del Olmo. A publicação aborda justamente a diferença entre estar sozinho e sentir-se sozinho e mostra por que a distância física é apenas uma pequena parte da complexa relação humana com a solidão.
A ideia de Thoreau é mais profunda do que uma simples defesa de momentos de isolamento. Para ele, a solidão não deveria ser calculada pela quantidade de espaço físico existente entre duas pessoas, mas pela distância que pode surgir entre suas experiências, pensamentos e sentimentos.
No próprio capítulo de Walden, Thoreau observa que uma pessoa pode estar cercada por outras e, ainda assim, permanecer solitária. Ele usa como exemplo um estudante dedicado em uma universidade movimentada: apesar de estar fisicamente cercado por colegas, sua concentração e sua vida interior podem colocá-lo em uma espécie de isolamento voluntário.
O raciocínio também funciona no sentido contrário. Alguém que trabalha sozinho no campo durante todo o dia pode não experimentar solidão enquanto está envolvido com sua atividade. O desconforto pode surgir somente quando retorna para casa e precisa permanecer sozinho diante dos próprios pensamentos. É justamente aí que a frase ganha força: solidão e isolamento físico não são necessariamente a mesma coisa.
Thoreau experimentou, na prática, uma vida mais afastada dos centros urbanos. Em 1845, ele foi morar em uma pequena casa que construiu às margens de Walden Pond, em Concord. A experiência durou pouco mais de dois anos e posteriormente deu origem a Walden; or, Life in the Woods, publicado em 1854.
Na obra, o escritor descreve uma rotina marcada pelo contato com a natureza, pelo trabalho, pela leitura e pela observação de si mesmo. A casa ficava a aproximadamente uma milha do vizinho mais próximo, e o próprio Thoreau descreveu o ambiente como suficientemente isolado para lhe proporcionar privacidade.
Mas o curioso é que, mesmo vivendo fisicamente distante de outras pessoas, ele não entendia necessariamente aquela condição como abandono. Pelo contrário, Thoreau escreveu que considerava saudável passar boa parte do tempo sozinho e afirmou que nunca havia encontrado uma companhia tão companheira quanto a própria solidão.
Estar sozinho descreve uma circunstância: não há outras pessoas fisicamente presentes naquele momento. Sentir-se sozinho, por outro lado, envolve uma experiência subjetiva. Uma pessoa pode estar em uma festa, conversar com amigos, trabalhar em um escritório cheio ou viver com um parceiro e, ainda assim, sentir que não existe uma conexão verdadeira com quem está ao redor.
É possível, portanto, que uma mesa cheia de pessoas produza menos sensação de pertencimento do que uma conversa profunda com alguém que está a milhares de quilômetros de distância.
A tecnologia tornou essa contradição ainda mais evidente. Hoje, é comum manter contato constante por mensagens, chamadas de vídeo e redes sociais sem que isso necessariamente resulte em intimidade. Ter dezenas, centenas ou milhares de contatos não significa, automaticamente, possuir relações capazes de oferecer acolhimento, confiança e pertencimento.
Nesse sentido, a frase de Thoreau parece atravessar o tempo porque desloca a discussão da quantidade de pessoas para a qualidade dos vínculos.
Outro ponto importante na reflexão do escritor é que nem toda solidão precisa ser combatida. Existe uma diferença entre a solidão imposta, que pode provocar sofrimento, e o isolamento escolhido conscientemente para descansar, refletir, criar ou simplesmente permanecer em silêncio.
Thoreau defendia justamente esse espaço individual. Em Walden, sua experiência longe da agitação social aparece não como uma fuga definitiva da humanidade, mas como uma tentativa de observar a própria vida com mais autonomia.
O escritor também não defendia uma existência completamente afastada das pessoas. No texto, ele reconhece a importância da convivência e da sociedade. A questão estava em encontrar uma medida própria entre a vida compartilhada e os momentos de recolhimento. É uma ideia que pode ser resumida de maneira simples: não é preciso escolher entre estar sempre acompanhado e viver completamente isolado.
A solidão emocional pode ser particularmente difícil porque, externamente, nem sempre existem sinais de que alguém está sofrendo com ela. Uma pessoa pode manter uma rotina social intensa, responder mensagens, sair com amigos, trabalhar em equipe e compartilhar fotografias sorrindo nas redes sociais. Ainda assim, pode experimentar uma sensação íntima de desconexão.
É nesse ponto que a reflexão de Thoreau se torna especialmente provocadora. Se a distância física fosse realmente o principal indicador da solidão, bastaria estar perto de outras pessoas para eliminá-la. Mas não funciona assim.
Uma relação marcada por escuta, confiança e identificação pode continuar emocionalmente próxima mesmo quando existe distância geográfica. Já uma relação sem intimidade pode parecer extremamente distante mesmo quando duas pessoas dividem a mesma casa. O espaço entre dois corpos pode ser pequeno; o espaço entre duas experiências pode ser enorme.